Capítulo 8: Abrir as Mãos
O ônibus escolar desceu a montanha às oito da manhã. Eu fui o único do subsolo. Os outros bolsistas não participavam do Projeto Alpino. Só nós dois. Valentina e eu, sentados nas fileiras do meio, sem falar nada, olhando a paisagem passar. As casas de Chamonix ficavam menores a cada quilômetro que descíamos. O verde subia. A neve ficava pro topo.
Eu olhava pela janela. Valentina olhava pelo celular. Ou tentava. A tela continuava preta. O bloqueio não tinha saído. Eu não tinha comentado.
O centro comunitário de Chamonix ficava num prédio moderno no vale, a quinze minutos de ônibus. Três salas, um pátio interno e uma cozinha que cheirava a pão. A coordenadora, uma francesa chamada Claire, nos recebeu na porta. Ela tinha uns quarenta e poucos anos, cabelos escuros cortados curtos e um sorriso que não se tratava de simpatia, mas de eficiência.
"Bento. Valentina. Vocês vão dividir o grupo de futebol e o grupo de doações. Eu divido as salas. Se precisarem de algo, eu tô aqui."
Ela apontou para a Sala A e a Sala B. Eu fui pra Sala A. Valentina foi pra Sala B. O projeto era simples de papel: Bento, que era o garoto de bolsa e o novo craque, ensinava futebol pra um grupo de sete crianças de sete a treze anos. Valentina, que era a ex-Rainha da Colina e a dona do blog, organizava doações pro centro. Roupas, materiais escolares, qualquer coisa que o centro precisasse.
Na prática, as duas coisas se mostraram piores do que eu esperava.
As crianças vieram em dez minutos. Um meninão de doze anos chamado Marc que já sabia mais que eu. Uma menina de nove anos chamada Élise que tinha medo de bola mas não dizia. Dois gêmeos de sete anos, os Perrin, que não paravam quietos. E outros três. Cada um com sapato de grife que eu não reconhecia a marca. Cada um com um celular no bolso dos pais, que observava de longe, como quem filma sem estar filmando.
"Vamos começar com passe curto", eu disse.
Marc não olhou pra mim. Olhou pra bola. "Passe curto é pra quem não tem chute."
"É pra quem tem chute pra acertar o pé certo", eu respondi.
Ele me olhou. Eu não recuei. As outras crianças riram. Eu não riu. Eu tinha jogado com crianças que falavam menos português que Marc falava francês, então a diferença de idioma não me assustava.
Ele chutou. A bola passou pelo pé de Élise, que deu um passo pra trás. O grito de Élise não foi medo. Foi indignação.
"Passe pra ela", eu disse pra Marc.
Marc olhou pra mim.
"Pra ela. Não pro muro. Pra ela."
Ele passou. A bola chegou fraca. Élise tentou controlar e a bola quicou. Mas ela controlou. Não foi bonita. Foi real. Foi o primeiro contato de uma menina com uma bola que ela nunca havia segurado.
Eu olhei pra Valentina. Ela estava na Sala B, organizando caixas. Roupas. Materiais. Um menino de dez anos olhava as caixas como quem vê um armário de loja. Como quem nunca precisou de nada.
Valentina estava de pé num banco de madeira, organizando o que havia sido doado. Um armário de doações que ela tinha organizado no palacete. Roupas grifes. Um blazer de tweed com o monograma bordado. Um par de sapatos que eu não reconhecia. Tudo novo. Sem uso. Doação de quem doava o que já não usava.
"Bento", ela chamou. "Isso aqui é suficiente?"
Ela segurava o blazer e perguntava se era suficiente. Como se "suficiente" fosse algo que se medisse.
"É mais que o centro precisa", eu disse.
"Mas o que ele precisa?"
"Roupas. Cadernos. Canetas. Uma bola."
"Eu tenho um blazer aqui."
"Deixa pra ela. Não pro centro. Deixa pra ela."
Ela olhou pra mim. Eu vi o calculo nos olhos. O que era suficiente. O que não era. O que era demais. O que era pouco. O equilíbrio que ela sempre fez em cada post do Oráculo. O que postar. O que esconder. Quantos likes eram o suficiente pra manter o status. Quantos eram o suficiente pra cair.
"Você tá medindo o que é suficiente?" eu perguntei.
"Eu tô medindo o que é útil."
"Roupa nova pra uma criança que precisa de roupa é útil. Roupas grifes que você doou e ninguém vai usar é útil do jeito errado. Não do jeito que parece."
Ela largou o blazer no chão. "Você acha que eu sou o problema?"
"Eu acho que você tá pensando no post, não na criança."
Silêncio. Ela não reagiu. Não se ofendeu. Se colocou na defensiva. Apenas escutou. Eu vi o ouvido de Valentina se acender quando ela tava escutando de verdade. Pequeno. Quase imperceptível. Mas era lá. A parte dela que não tava calculando, tava ouvindo.
No fim da manhã, Marc já estava fazendo passe longo. Élise tinha parado de gritar. Ela corria atrás da bola. O primeiro drible dela foi desajeitado. A segunda foi boa. A terceira ela caiu. Não se levantou. Não chorei. Sentou no chão e esperou.
"Você tá bem?" eu perguntei.
"Meu joelho tá doendo."
"É normal cair na primeira semana. Eu caí mais do que chutei."
Ela olhou pra mim. "Você caiu muito?"
"Eu caí muito. Muito. O chão de areia do campo é pior que o chão de concreto da favela. É escorregadio. E a areia entra nos joelhos e não sai mais."
"Não sai mais?"
"Não. Você tem que lavar. E às vezes não sai. Você fica com manchas de terra que ficam por meses."
Ela tocou o joelho. Tinha um arranhão. Não sangrou. Não precisou de nada. Era só um arranhão. Ela se levantou. Eu vi ela se levantando.
No fim do treino, as crianças foram embora com os pais. Marc foi com a mãe, que ficou olhando pra mim como quem avalia um novo professor. Eu não me importe. Marc tinha bom pé. Era só questão de ensinar ele a passar, não de chutar.
Valentina não tinha se mexido da Sala B. Ela tinha empilhado as caixas de forma simétrica. O blazer de tweed no topo. O monograma virado pra fora. "Pra que é essa ordem?" eu perguntei.
"Ela tem que estar organizada quando o fotógrafo vier."
"O fotógrafo?"
"Eu vou mandar uma foto. Pra mostrar que o projeto tá acontecendo."
"O projeto tá acontecendo agora. Você não precisa de fotógrafo."
"O projeto sem registro não existe. É lei do mundo real."
"Eu não conheço essa lei."
Ela me olhou. E eu vi. Vi de novo. Os olhos verdes. Sem filtro. Sem maquiagem. Sem cálculo de enquadramento. Só ela. O corpo de uma garota de dezoito anos, cansada, sem celular, num centro comunitário em Chamonix. Era ela. Só ela.
Às doze horas, voltamos pro palacete. Almocemos. Comida de palacete. Sopa de cebora francesa. Pão. Queijo. Nada que eu reconhecesse o nome. Eu comi devagar. Valentina comeu rápido. Comida rápida é sinal de ansiedade. Eu já sabia disso de antes. Antes do Oráculo. Antes da queda. Desde o primeiro dia.
À tarde, voltamos pro centro comunitário. A mãe de Marc veio nos buscar no almoço. Ela vestia um casaco de lã que custava mais do que o salário de um professor em Chamonix. Ela chegou com um sorriso.
"Você é o novo aluno do Mont Blanc? O Bento, certo?"
"Sim."
"E as chuteiras que você usou de manhã... são novas?"
"Não."
"E qual a marca?"
"Não é marca. São de segunda mão."
Ela sorriu. Um sorriso de quem tava avaliando. Não de má fé. De curiosidade. "Vocês não têm uniforme na escola?"
"Tem. Mas não é obrigatório em todos os momentos."
"Entendo. E as chuteiras... elas custaram quanto?"
Eu olhei pra Valentina. Ela tava atrás de mim, segurando uma caixa de material escolar. Ela tava prestando atenção. Eu sabia que tava. Ela aprendeu a escutar mesmo quando não tava interessada. Era uma habilidade do Oráculo. Escutar os outros falarem e não aparecer.
"Eu não sei o preço", eu disse.
"De verdade? Você comprou de segunda mão e não sabe o preço?"
"Eu comprei de alguém que não precisava mais. Não é uma compra. É um presente."
A mãe de Marc assentiu. "Eu entendo. Aqui na cidade, a gente também faz isso. As crianças crescem rápido. As roupas não duram."
Ela foi embora. Eu olhei pra Valentina.
"Você ouviu isso?" ela perguntou.
"Eu sempre ouço isso. A diferença é que eu finjo que não escuto."
"Você finje tanto que parece que não escuta de verdade."
"Tá certa. Eu não escuto. Eu escolho não escutar. É diferente."
Ela guardou a caixa de material. Não foi devagar. Foi devagar de propósito. Ela estava pensando. O mesmo cálculo. O mesmo cálculo que ela usava antes do Oráculo. Mas agora, o cálculo não tava pra postar. Tava pra escolher.
No final da tarde, o projeto estava ruim. Eu ensinei três passes e duas quedas. Valentina organizou quatro caixas e um blazer de tweed. Nenhum fotógrafo. Nenhuma foto. Nada que aparecesse em nenhum lugar. Mas Élise tava sorrindo. Não o sorriso de quem sabe que tá sendo observada. O sorriso de quem tá brincando. O sorriso que não tem câmera.
"E isso é o suficiente", eu disse.
"E para que é?"
"É o suficiente pra você. É o suficiente pra ela. É o suficiente pra nós dois. Se o mundo não vir, não tem problema. O importante é que aconteceu."
Valentina não respondeu. Pegou a caixa. Saimos do centro comunitário. Subimos no ônibus. O caminho de volta era o mesmo. A paisagem subia. A neve descia. O silêncio entre nós não era vazio. Era pesado. Mas era o tipo de pesado que se carrega. Não o tipo que se esmaga.
No palacete, à noite, voltamos ao quarto. A mesma cama king-size. A mesma janela. A mesma neblina subindo.
Valentina sentou na janela. Eu me sentei na cama. A mesma separação de antes. Um metro de distância. O espaço de quem precisa se lembrar que tá no mesmo lugar por obrigação.
"Bento", ela disse. "O Oráculo."
"O Oráculo?"
"Eu não sei se vai voltar. Eu não sei se vai ter outra conta. Eu não sei se vai ter nada que substitua."
"Substituir não é o problema. O Oráculo era um espelho. Espelho não se substitui. Espelho se guarda ou se quebra."
"Se eu quebrar o espelho, o que sobra?"
"Você."
Ela não respondeu de imediato. Eu não a pressionei. Eu esperei. Os dois. Eu esperei. O palacete respirava. A neblina subia. O silêncio entre nós não era vazio. Era pesado. Mas era o tipo de pesado que se carrega. Não o tipo que se esmaga.
"Você acredita que é eu?" ela perguntou.
"Eu acredito em tudo que eu vejo. E eu vejo você. Agora. Sem celular. Sem filtro. Sem post. Você tá aqui. Isso é mais que o Oráculo."
Ela se virou pra mim. Não com raiva. Não com calculo. Com uma pergunta que não era uma pergunta. Era uma afirmação disfarçada de pergunta. "Eu não sei quem eu sou."
"Quem você era. Você não sabe. Eu sei quem você é."
"E quem?"
"Eu não sei. E talvez você também não. E talvez seja isso que a gente precisa descobrir."
Ela não disse mais nada. Eu não disse mais nada. A neblina continuava subindo. A janela continuava aberta. A cama continuava grande.
E no escuro, os dois, separados por um metro de colchão, o silêncio não era vazio. Era o espaço de duas pessoas que não sabiam o que era. Mas que, de alguma forma, estavam descobrindo.
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